O Brasil e o segundo ano do regime de Preços de Transferência alinhado com a OCDE: principais desafios e lições para as multinacionais

junho 30, 2026

Brasil e o segundo ano do regime de Preços de Transferência alinhado com a OCDE: principais desafios e lições para as multinacionais

A adoção do novo regime brasileiro de Preços de Transferência marcou uma das mudanças mais relevantes na tributação internacional da América Latina. Com a entrada em vigor da Lei nº 14.596/2023 e da Instrução Normativa da RFB nº 2.161/2023, o Brasil deixou para trás um sistema baseado em margens pré-determinadas para adotar plenamente o princípio da plena concorrência (Arm’s Length Principle), alinhando-se às Diretrizes da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Agora, durante o segundo ano de aplicação obrigatória do novo regime, as empresas multinacionais enfrentam um cenário que vai além da conformidade formal. A experiência adquirida durante o primeiro ciclo de implementação revelou novos desafios relacionados à documentação, à análise econômica e à gestão do risco fiscal.

Da conformidade regulatória à gestão estratégica de risco

O antigo modelo brasileiro caracterizava-se por regras objetivas e metodologias específicas que, embora simplificassem o cálculo dos Preços de Transferência, se afastavam dos padrões internacionais.

Com a incorporação do princípio da plena concorrência, as empresas devem demonstrar que as condições acordadas entre partes relacionadas refletem aquelas que teriam sido acordadas entre empresas independentes em circunstâncias comparáveis.

Essa mudança aumentou significativamente a importância de aspectos como a análise funcional, a identificação dos riscos assumidos por cada entidade, a seleção de comparáveis confiáveis e a elaboração de estudos econômicos tecnicamente sólidos.

Consequentemente, a documentação dos Preços de Transferência deixa de ser um requisito meramente formal para se tornar um elemento fundamental de gestão e defesa diante de eventuais processos de fiscalização.

A qualidade da análise econômica assume um papel de destaque

Um dos principais aprendizados observados durante o primeiro ano de aplicação do novo regime foi a necessidade de fortalecer as análises de comparabilidade.

A seleção correta de empresas comparáveis, a utilização de informações financeiras consistentes e a justificativa adequada dos ajustes econômicos representam hoje fatores determinantes para sustentar o cumprimento do princípio da plena concorrência.

Da mesma forma, as empresas devem avaliar com maior detalhamento operações que antes recebiam menos atenção, como serviços intragrupo, transações financeiras, utilização de ativos intangíveis e reorganizações empresariais.

Nesse contexto, a análise econômica deixa de ser um complemento documental para se tornar um dos principais elementos de avaliação por parte da administração tributária.

Maior convergência com as práticas internacionais

A harmonização do regime brasileiro com as Diretrizes da OCDE também facilita a coordenação entre o Brasil e outras jurisdições que já aplicam o princípio da plena concorrência.

Isso representa uma oportunidade para os grupos multinacionais, ao permitir maior consistência entre a documentação preparada em diferentes países, especialmente no que se refere ao Master File, ao Local File e à análise global da cadeia de valor.

No entanto, isso também implica um aumento no nível de exigência técnica, uma vez que as políticas internas de Preços de Transferência deverão demonstrar coerência econômica em todas as jurisdições onde o grupo empresarial opera.

O que as empresas devem levar em consideração neste segundo ano?

A experiência adquirida durante a primeira etapa de implementação permite identificar algumas prioridades para as empresas com operações no Brasil:

  • Revisar periodicamente suas políticas de Preços de Transferência.
  • Atualizar as análises funcionais e de riscos.
  • Fortalecer a qualidade dos estudos de comparabilidade.
  • Documentar adequadamente as operações com partes relacionadas antes do encerramento fiscal.
  • Monitorar possíveis diferenças entre os resultados financeiros e as condições de mercado para reduzir contingências tributárias.

Adotar uma abordagem preventiva permitirá responder com maior solidez a eventuais solicitações da Receita Federal do Brasil e diminuir os riscos de ajustes futuros.

A transição do Brasil para um regime totalmente alinhado às Diretrizes da OCDE representa muito mais do que uma reforma normativa. O segundo ano de aplicação confirma que o sucesso da conformidade não depende mais apenas da aplicação de uma determinada metodologia, mas de demonstrar, por meio de evidências econômicas robustas e documentação técnica de qualidade, que as operações entre partes relacionadas respeitam o princípio da plena concorrência.

Para as empresas multinacionais, esse novo cenário exige uma visão estratégica dos Preços de Transferência, na qual a prevenção, a consistência documental e a análise econômica assumem um papel central na gestão do risco fiscal.

No TPC Group, contamos com uma equipe especializada em Preços de Transferência que assessora empresas nacionais e multinacionais na implementação do novo regime brasileiro, na elaboração de documentação em conformidade com os padrões da OCDE, no desenvolvimento de análises de comparabilidade e no atendimento a auditorias e controvérsias tributárias no Brasil e em toda a América Latina.

Fonte:

PLANALTO

OCDE

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